Encontrando Olokun

por Mirimon Arcalimon

Hoje gostaria de falar dessa divindade que é tão importante e presente em minha vida, e do qual eu falo bem pouco, em relação à outras divindades mais importantes do meu culto. De como eu a encontrei(ou ela me encentrou) e de como ela entrou em minha vida. Olokun, para aqueles que estão menos familiarizados, é a divindade dos oceanos, mares e suprema/mais antiga divindade das águas. Olokun também foi a progenitora de Yemoja(Iemanjá) na grande maioria das versões de seu mito.

Para falar sobre essa divindade em minha vida, preciso dar uma rápida pincelada na história de seu culto. Atualmente, na África, existem 3 “Olokuns”:Seniade, Ajaokoto e Asorodayo, que muito provavelmente eram uma única divindade, que acabaram se diferenciando com o desenvolvimento de seu culto.

Ajaokoto é um personagem histórico dos yorubás do Benin, que após a morte teria sido divinizado como o senhor dos mares, sendo masculino. Seniade é venerada na Nigéria, seria a Olokun “original”, não nascida e feminina, enquanto Asorodayo seria um título dado por Olokun Seniade a Orunmilá, quando ela ficou maravilhada por sua adivinhação.

Com o tráfico de escravos de diferentes nações, essas três formas de culto ao nome “Olokun”, chegaram à América e, na Santeria Cubana, pelas similaridades litúrgicas e pelo próprio nome da divindade, acabaram se tornando um só. E é essa a visão que eu mantenho dessa divindade: um ser não nascido e não criado, bigênero e que tem domínio sobre o elemento água como um todo.

E não só pela minha visão sobre Ele/Ela, mas também por meu culto ser diferente, que o conteúdo do texto possa ser estranho para outros devotos desse Deus/Deusa. Esse é só um aviso que eu queria dar: Meu culto e minha visão da divindade é diferente, logo não se ofenda, caso você perceber algo que vá de encontro ao que você aprendeu/pratica(e não me ofenda também).

Aviso dado, vou à parte que interessa. Sou devoto dessa divindade desde que a conheci, com 13-14 anos, desde que ouvi falar dela, em sites sobre Santeria e através de algumas pessoas de Candomblé. Acabei me interessando em conhecê-la, e como eu já era devoto de outros Òrísá, na época, tomei coragem e fui tentar chamar a atenção Dele/Dela.

Porém não obtive nenhuma resposta. O fato é que Olokun não gosta muito dos humanos, e é uma divindade muito aplacada, visto que sua ira pode causar desastres naturais de diversos tipos, desde secas, inundações, deslizamentos, etc. Sendo assim, era de se esperar que Ele/Ela quisesse me evitar, mas a questão é que eu já tinha ouvido falar isso outras vezes, e de outros deuses do mesmo panteão, e nunca tinha “ficado no vácuo” ao chamar uma divindade, fiquei surpreso pelo evento inédito.

Resolvi tentar de novo. Nenhuma resposta, nem positiva, nem negativa. Continuei tentando, inclusive fazendo rituais para Ele/Ela no mesmo dia que para outras divindades. Todo mundo me respondia, Olokun não. Até que um dia obtive uma resposta, pude sentir claramente uma força, imensa e pesada ao meu redor.

Então continuei tentando. Todo o ano eu e minha família vamos à praia, então decidi levar uma flor para Ele/Ela naquele ano. Quando fui para diante do mar, a maré estava bem baixa, então eu fui o mais fundo possível deixar a flor, para que não voltasse até a praia. A maré subiu de repente, pouco depois que soltei a flor, e jogou a mim e a oferenda de volta.

Me senti observado, como se Ele/Ela dissesse: “Tá bom, deixa eu ver o que esse chato quer”. Era uma sensação desconfortável, como se eu estivesse sendo julgado. De volta em casa, tudo começou a desmoronar e a ficar uma merda de repente. Na escola as coisas ficaram pesadas, em casa eu me sentia muito mal, pelo que acontecia na escola. Não que eu ficasse chorando ou coisa do tipo, mas estava ficando desgostoso, irritado e desanimado.

Durante seis meses, essa sensação de estar sendo observado ficou me acompanhando, e esse tempo todo eu insisti no contato com Ele/Ela, porque queria conhecer essa divindade. Depois de um tempo nessa situação, pensei se eu estava a ofendendo, e decidi oferecer uma reparação, para que ela retirasse o azar de mim, assim que tivesse chance, e então a deixaria em paz.

Nas férias de meio de ano, minha mãe quis ir à praia, uma coisa inédita, já que é durante o inverno e aqui onde eu moro faz frio. Mesmo assim, vi a oportunidade e decidi levar minha reparação para ela. Levei àkàsá(acaçá), que eu mesmo fiz. Na praia, parecia verão, com o sol torrando, o céu aberto e a maré alta. Achei de bom tom acrescentar algumas flores pra deixar o àkàsá mais bonito, ou sei lá, e fui entregar.

A maré estava bem alta e não precisei ir tão longe pra deixar a comida e as flores. A massinha branca desfez na água e as flores afundaram. Eu pedi desculpas por qualquer ofensa e prometi que ia deixa-la/lo em paz. O mar começou a puxar com força, começou a ventar e eu decidi sair. Foi difícil nadar de volta, mesmo não tendo ido longe, e eu fiquei muito cansado. Quase dormi na praia mesmo, quando a alcancei, mas também já estava escurecendo, então voltei para a casa onde minha família e eu estávamos hospedados.

Eu dormi como uma pedra naquele dia, e acabei saindo do corpo. Fui parar num lugar que parecia um templo, onde haviam alguns tocadores de tambor e algumas mulheres de vestido branco, cantando e dançando. Parecia algum lugar na África, eu não falei com ninguém apenas me acomodei e fiquei assistindo o andar do ritual.

Trouxeram uma pessoa, coberta de èfún(pó branco), e eu decidi sair, mas fiquei preso pela multidão. Começaram a tocar e eu reconheci o nome “Olokun” no meio da cantoria. Aí eu fiquei nervoso, e tentei sair de novo, mas não consegui. A pessoa pintada de branco começou a dançar e me chamou pra perto dela. Finalmente pude passar, e fui pra perto dela sem opção.

Não conversamos, mas ela me tratou muito bem. Eu sabia que era Olokun ali, fiquei pensando se podia ser algum tipo de pegadinha, mas Ele/Ela foi muito complacente. Nos deram de comer, com favas, banana frita, peixe, inhame, milho, entre outras coisas. Eu não comi muito e pedi para voltar. Olokun sorriu, encheu o santuário de água, a construção deu lugar ao fundo do oceano e a divindade me levou.

Até que o nível da água foi baixando, até secar completamente e eu ser deixado na frente da casa onde estava hospedado(me tirou do corpo, mas me fez voltar sozinho, humpf ¬¬). Eu acordei me sentindo muito bem, muito bem mesmo. Quando retornei à praia, levei outras flores e entreguei no mar. Pela noite, novamente Olokun veio e me levou pra passear. Cada noite me levava num canto diferente do oceano, ou algum outro santuário diferente onde estavam lhe festejando, isso durante toda a semana que permaneci de férias na praia.

Depois que voltei pra casa, no computador, pesquisei mais sobre o culto de Olokun, e descobri que muito das visões das projeções que tive durante aquela semana tinham relação com o culto do Benim. As cantigas, as vestimentas e a estrutura dos rituais eram as mesmas, e os santuários eram bastante parecidos com alguns templos do Benim(não sei se são os mesmos, porque nas projeções eu me focava mais na divindade que no ambiente), o que me confirmou as experiências que eu tive naquela semana.

Hoje, depois de tanto tempo na companhia dessa querida divindade eu entendo o porque disso lá atrás. Muita coisa que eu vivi, eu vivi com Ele/Ela, muitas experiências mágicas e espirituais que eu achava até impossíveis. Muita das vezes que eu estava caído, Olokun me levantou, e muitas vezes quando me senti sozinho, Olokun me fez sentir-me amado. Ele/Ela é uma divindade muito intensa, muito oito ou oitenta, e é preciso saber se a pessoa aguenta esse tipo de solavanco energético, e o quanto ela é resistente aos extremos.

Além de que, o relacionamento com Olokun é assim. Essa divindade não é do tipo que gosta de ficar na “prateleira” das pessoas, nem de perder tempo com gente vazia. Não é do tipo que aceita que você só lembre dele quando precisa, e depois que resolve o problema esquece, nem do tipo que aceita que deem oferenda num dia, pedindo seus favores, e depois lhe insultem no outro, lhe chamando de “demônio”, ou desrespeitando seus locais sagrados. Se Ele/Ela vem pra sua vida, vem pra ficar e fazer parte dela, profundamente, seu amor é tão grande quanto seu ranço e ódio, e os dois são imensos. Por isso a divindade quer ter certeza de que você a quer ali(e você deve ter também).

Eu tenho certeza que continuarei querendo essa ilustre companhia, por enquanto eu ainda viver. Eu já agradeço muito, e tenho certeza que Olokun me dará muito mais por agradecer. Olokun é uma divindade grandiosa, que traz prosperidade e alegria. A mais antiga divindade das águas nos faz rir, de felicidade e alegria.

Eepá Omi ò!

 

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26169359_967821513365044_5833293999519233525_nMirimom Arcalimon. Me defino como um bruxo que busca a experimentação de uma bruxaria africanizada e afrocentrada, baseada principalmente no culto dos Òrísá, da religião Yorubá e Loa, do Vodu, e o estudo das culturas e dos espíritos da África subsaariana. Autor da coluna Concha de Igbin.

 

 

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