Por quê Sagrado Masculino? #1

por Dannyel Castro

Há milhares de anos o homem vem perdendo a conexão com a sua essência, algo que foi ao longo do tempo cada vez mais incentivado pelas demandas externas de uma sociedade antropocêntrica, capitalista, industrializada e machista. O mundo hoje vive intensamente todos os reflexos de muitos anos de um modelo cultural de evolução doentio que foi disseminado por todo o globo. O masculino teve um papel central nesse processo, pois esteve em suas mãos, durante esse tempo todo, o poder para dar esse rumo à civilização humana. Mas, estando doente, o masculino conduziu o mundo a um desenvolvimento distorcido, desumanizado. É evidente que existem exceções a essa regra, pois, ao longo desse tempo, do masculino também veio a inspiração para criações fantásticas. Mas no geral, foi o masculino que nos conduziu ao aparente beco sem saída que atualmente nos encontramos enquanto humanidade.

Uma das maiores exemplificações disso é o projeto da modernidade. De maneira geral, a modernidade consiste em uma tentativa de submeter a vida inteira ao controle absoluto do homem sob a “segura” direção do conhecimento. O filósofo alemão Hans Blumemberg evidencia em sua obra Die Legitimität der Neuzeit que este projeto exigia, conceitualmente, elevar o homem ao nível de princípio ordenador de todas as coisas; em outras palavras, já não era mais a vontade de Deus que decidia o rumo das coisas, mas o próprio homem que, servindo-se da razão, buscava ser capaz de decifrar as leis inerentes à natureza para colocá-las a seu serviço. De acordo com o filósofo colombiano Santiago Castro-Gomez, na prática isso se deu por meio do enaltecimento da razão científica-técnica: “a natureza é apresentada como o grande ‘adversário’ do homem, como o inimigo que tem de ser vencido para domesticar as contingências da vida […], e a melhor tática para ganhar esta guerra é conhecer o interior do inimigo, perscrutar seus segredos mais íntimos, para depois, com suas próprias armas, submetê-lo à vontade humana. O papel da razão científico-técnica é precisamente acessar os segredos mais ocultos e remotos da natureza com o intuito de obrigá-la a obedecer nossos imperativos de controle. A insegurança ontológica só poderá ser eliminada na medida em que se aumentem os mecanismos de controle sobre as forças mágicas ou misteriosas da natureza e sobretudo aquilo que não podemos reduzir à calculabilidade”.

Pois então, o grande projeto moderno consiste em submeter a natureza aos domínios do homem. Submeter a Grande Deusa, a Terra, Grande Mãe de nós todos, Gaia, Danu, Pachamama, ou como queira chamá-la, aos domínios do masculino doentio, viciado em poder e lucro. Ir mais a fundo nessa história é perceber que esse tipo de iniciativa é uma tentativa ancestral masculina de subjugar o feminino. A mulher, assim como a natureza, sempre foi tida pelos homens como misteriosa, mágica, ambígua, louca, e é dessa percepção que nasceu, ainda nas culturas antigas, a vontade de domar esse mistério, essa força primordial que sangra em toda lunação, que é capaz de gestar e dar à luz uma vida, e ainda nutri-la com um leite que é produzido pelo seu corpo. O que é o homem diante de todo esse mistério? Como ele não quer ficar por baixo, passa a utilizar a sua força para empreender essa tarefa de dominação, de conquista, de subjugamento. Da mulher, da Deusa-Terra, dos outros, das terras dos outros… Essa é a história da humanidade, quer você aceite ou não.

Isso constitui um legado ancestral de anos, milênios… Todos os homens que vivem recebem este legado ancestral do masculino. Recebemos principalmente através das “regras” sobre o que é ser homem na sociedade, dos papeis distorcidamente associados ao masculino. Através disso tudo, somos levados a não expressar sentimentos e emoções, participamos de competições absurdas de poder, não respeitamos o feminino (dentro e fora de nós), entre outros tantos problemas. Pode ser que nossos pais, tios, avôs, bisavôs, etc., tenham se sentido confortáveis em levar adiante esse legado ancestral masculino que tanto os distancia da essência masculina, aceitando conviver com ele. No entanto, o que nós fazemos com esse legado é decisão nossa. Nós estamos novamente diante das escolhas que nossos ancestrais tiveram de fazer, e podemos fazer diferente. Podemos trazer luz à nossa ancestralidade. Podemos curá-la.

A boa notícia é que o beco em que nos encontramos não é sem saída, ainda que aparente ser. Se o masculino foi durante esse tempo todo parte central do problema, ele também poderá ser de suma importância na solução do mesmo. Mas para isso os homens precisam assumir um trabalho de reflexão e consequente ressignificação profunda sobre o que é ser homem. Muitos já estão fazendo isso, o que muito me alegra e me enche de esperança. Mas muitos mais ainda estão adormecidos, vagando por aí sem rumo, perdidos, tendo sua energia sugada pelo sistema e por ter que alimentar a masculinidade tóxica em si e na sociedade.

O Sagrado Masculino é um caminho de resgate do masculino saudável. Antes que pensem, não está restrito a nenhuma vertente religiosa específica, não cabe em uma caixinha, como a masculinidade tal como conhecemos. É algo mais profundo. Diz respeito à espiritualidade, ao autoconhecimento, à mística por trás dos ciclos e da essência de todo homem. Os modelos que podem nos inspirar nesse caminho estão nas sociedades tribais mais antigas do mundo, nas quais os homens possuíam iniciações e ritos de passagem, conheciam a si mesmos profundamente, compreendiam a sacralidade das mulheres e as respeitavam, eram protetores, cuidavam e conduziam amorosamente seus filhos, desempenhavam plenamente suas funções no clã, eram respeitosos com todos os seres, reverenciavam e estavam em harmonia com a Deusa-Terra, assim como reverenciavam e estavam em harmonia com o Masculino Divino, o Grande Deus. Os povos indígenas da América Latina têm muito a nos ensinar nesse sentido, pois se formos procurar entender suas visões de mundo, veremos que estão permeadas por diversos desses aspectos.

Vejo que para alguns homens o Sagrado Masculino parece “viagem”, “besteira”, “coisa sem importância”. Mas basta olhar ao redor e ver o quanto o masculino está dessacralizado e doente para perceber que não é. É urgente. Importa. Transformar o mundo pode muito bem começar com a simples tarefa de transformar o nosso mundo, isto é, aquilo que temos dentro de nós e o meio no qual estamos inseridos.

Essa é uma série de textos sobre Sagrado Masculino que se inicia hoje, e seguirá pelas próximas semanas. Caso tenha alguma dúvida, crítica, sugestão, ou algo a mais a dizer, a caixa de comentários está totalmente aberta para o diálogo saudável, sinta-se à vontade 🙂

 

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Dannyel Castro é pai, escritor, educador e pesquisador. Membro do grupo Clann Samaúma. Criador e editor do portal Bosque Ancestral e responsável pela coluna Entre Mundos, que reúne artigos com reflexões, vivências pessoais, entre outras coisas.

 

 

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