Por quê Sagrado Masculino? #2: homens não falam

por Dannyel Castro

Acredito que, antes de mais nada, é importante informar que não é minha intenção convencer ninguém a respeito de nada com essa série de textos. Estou buscando compartilhar um pouco dos saberes que tenho aprendido ultimamente com quem quer que precise. Sinto que há pessoas precisando desse conhecimento, e se posso auxiliar de alguma forma, ainda que mínima, vamos lá, né?

Além disso, percebo que há uma nebulosa pairando sobre o termo “sagrado masculino”, muito em função de se tratar de um movimento difuso, descentralizado e ainda em processo inicial. Isso é normal, começos e novos caminhos por vezes são confusos e incertos. Eu mesmo já estive em conflito com ele, mas em meu processo identifiquei que isso se deu quando eu estava muito teórico, focado demasiadamente no mental (em racionalizar, divagar, conjecturar, rotular). Quando relaxei, soltei o controle e me abri para o sentir, para vivenciar o que a jornada estava me proporcionando, comecei a compreender melhor a respeito de muitas coisas.

Ressalto ainda que não sou nenhum esclarecido, mestre ou especialista no assunto… Completamente longe disso. Sou simplesmente um Filho da Terra despertando, levantando, relembrando e aprendendo. Estou trilhando o caminho espiritual, que para mim é o caminho do coração, da intuição, do autoconhecimento, da integridade, e, como educador, acredito sinceramente no poder do compartilhar e do aprendizado mútuo.

Glowy+head+man

 

Homens não falam

A cada cinco suicídios cometidos no mundo, quatro são de homens. Em países como Inglaterra e País de Gales, por exemplo, o suicídio é a principal causa de morte entre homens com idades entre 20 e 34 anos. Especialistas no assunto demonstram unanimidade quando questionados a respeito da causa disso: os homens não falam. Há toda uma cultura baseada na repressão emocional dos homens, que só podem exprimir raiva e ódio, muitas vezes por meio da violência, o que é aceitável e até incentivado pela sociedade e pelas mídias de massa.

Expressar-se emocionalmente e afetivamente, para os homens, é tido como sinônimo de fraqueza – o homem deve ser forte, viril, violento -, ou (pior ainda) é algo que os aproxima do feminino, o que os homens devem evitar ao máximo, sob pena de terem sua sexualidade posta em jogo ou serem taxados de “marica”, “mulherzinha”. Em contrapartida, é totalmente aceitável, na sociedade patriarcal, o masculino se expressar através da raiva, do ódio, da homofobia, do desprezo pelas mulheres, da cultura dos manos.

Mas é essa masculinidade tóxica que tá levando os homens à morte. Com o suicídio, um homem comunica aquilo que não conseguiu comunicar em vida: que precisava de ajuda, de apoio; que precisava botar pra fora. Prender, reprimir, controlar… É o que o masculino doente faz, consigo e consequentemente com o mundo à sua volta.

Os círculos de homens centrados no caminho do Sagrado Masculino exercem uma função importantíssima nesse sentido, pois são espaços onde os homens devem falar. Expressar suas dúvidas, medos, feridas, anseios… Entre outras coisas, são espaços (ao meu ver, pelo menos, deveriam ser) para se botar pra fora mesmo. Para criar vínculos saudáveis com outros homens por meio desse compartilhamento honesto de experiências. Não são espaços para reforçar esteriótipos desse sistema patriarcal que tanto nos deixou doentes, não é para sentar e falar só de sexo, futebol, brigas, videogame e coisas superficiais com as quais os homens estão acostumados a conversarem entre si. Os círculos de homens devem ser um importante mecanismo da cura dos homens.

Outro ponto que considero fundamental é a reconexão com a natureza. Estudos recentes indicam que estar em meio a natureza pode ser um baita remédio no combate à depressão, à ansiedade e outras doenças que comprometem significativamente a saúde mental. Como vimos no primeiro texto dessa série, o homem foi gradativamente se desconectando da natureza até tentar, com o projeto da modernidade, submetê-la aos seus domínios. Isso adoeceu o homem em um grau extremo… Nós não somos separados da natureza, pelo contrário, somos parte dela.

Nos afastar da natureza foi algo crucial para o comprometimento do masculino saudável. O sistema patriarcal que subjugou a natureza nos condicionou a aprendermos as suas virtudes doentias para que nós sigamos o seu fluxo e sejamos homens bens sucedidos. Nós somos Filhos da Terra. Voltemos à ela, então… Para aprender com seus ciclos, seus mistérios, sua soberania, sua ética.

Romper com os paradigmas vigentes é uma tarefa desafiadora. Requer a reprogramação da mente, com a desconstrução de diversos aspectos que nós homens somos ensinados desde sempre. Mas é um exercício de cura, da cura que o mundo precisa.

Nós precisamos urgentemente aprender a nos expressar, a falar, a deixar cair a máscara de bonzão, de forte, sério, inatingível. Faz parte do nosso processo de cura. Eu mesmo estou nesse exato momento trabalhando a minha forma de me expressar, através desse texto…

Vamos juntos?

Essa é uma série de textos sobre Sagrado Masculino que se iniciou aqui, e seguirá pelas próximas semanas. Caso tenha alguma dúvida, crítica, sugestão, ou algo a mais a dizer, a caixa de comentários está totalmente aberta para o diálogo saudável, sinta-se à vontade 🙂

 

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Dannyel Castro é pai, escritor, educador e pesquisador. Membro do grupo Clann Samaúma. Criador e editor do portal Bosque Ancestral e responsável pela coluna Entre Mundos, que reúne artigos com reflexões, vivências pessoais, entre outras coisas.

 

 

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3 respostas para “Por quê Sagrado Masculino? #2: homens não falam”

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