Òșóòsí, o Senhor da Humanidade

por Mirimon Arcalimon

Òșóòsí recebe o título de Oni Àráàyè (Senhor da Humanidade/do Povo da Terra). Isso por que o mito central dessa divindade, bem como toda sua história de vida, demonstra uma série de qualidades múltiplas, consideradas ideais para o bom desenvolvimento dos humanos. Só de começo, ele venceu a própria encarnação do medo, mesmo quando este tentou tornar-se mais forte para derrotá-lo, mesmo assim foi e venceu.

Quando o pássaro do medo foi vencido, Òșóòsí não só venceu os próprios temores, como ele inspirou outras pessoas a fazerem o mesmo. Ele elevou a moral daquelas pessoas e as ensinou a terem coragem, mesmo que estivessem enfrentando a personificação das piores coisas da terra. Deve-se agir com coragem e confiança na própria força, apesar do medo, Ele mesmo agiu assim, não precisando de mais do que sua única flecha, para derrubar o medo.

Ele também ensina o respeito e a consideração para com o espaço e o conhecimento dos outros. Ele sempre aprendeu algo novo com os demais deuses, e sempre foi capaz de ensinar aos que quiseram aprender. Foi o primeiro e mais leal aprendiz de Ògún, assim como foi aprendiz de Ìyá Mi, Òsányín, Yewá, Obatalá, Orunmilá e outras divindades, por isso ele também recebe o título de “Senhor Doador do Intelecto”, porque ele muito se intelectualizou nas mais diversas áreas possíveis, e ensina a fazer o mesmo.

Òsóòsí não tem inimigos entre os outros deuses, ou pelo menos não de seus próprios esforços. Todas as contendas que ele aparece arrumando em suas lendas são por mal-entendidos, como quando ele matou a esposa de Oduduwa. E quando ele realmente comete uma falta por seu próprio juízo, ele oferece reparação prontamente, como quando ele matou o elefante de Obatalá, ou revelou o segredo embaraçoso e sua esposa, Òtín, por acidente.

Sendo assim, podemos tirar de seus mitos, também, a importância de não se cegar na própria sabedoria e inteligência. Repare seus erros, conserte suas injustiças e reestabeleça a paz e a ordem, para que o medo e o caos não se instaurem nas pessoas. Zele pela sua boa fama, para que ela sempre o mantenha bem, e te anteceda com bons olhares diante das pessoas.

Outra grande lição a se tirar das lendas desse deus é sobre generosidade e solicitude. Embora seja sempre importante não dar mais do que se tem, nem tirar do próprio estomago vazio para se dar a um faminto, é importante sim agir com gentileza para pessoas que precisam de ajuda. Òșóòsí solicitamente ajudou todas as divindades que cruzaram seu caminho, quando precisaram de auxílio. Ele não faz inimigos, e não faz nada onde não puder fazer amigos.

E talvez uma das maiores lições dele seja a sua profunda relação com o divino feminino, mesmo sendo um deus de caráter extremamente masculinizado. Todas as divindades femininas tem caminho com Òsóòsí, mesmo as que são ditas ter ojeriza a homem, como Nàná, Òbá, Yewá e até Ìyá Mi. Òsóòsí reconhece o poder feminino, caminha junto dele, aprende com ele e o defende.

Das que eu conheça, todas as Ayabá (deusas) são amigas e aliadas leais de Òșóòsí, como ele delas. Uma das poucas vezes que ele teve qualquer problema com uma das divindades femininas, foi quando, estando bêbado, contou o segredo de sua amada esposa Òtín, que tinha quatro seios. Quando Òtín fugiu, envergonhada, ele abandonou o próprio trono, na cidade de Ketú, para ficar com ela, no fundo da floresta. Òșóòsí é motivado por seus ideais e por amor, simplesmente.

Ele é o grande caçador, e o mais famoso de todos os caçadores. Ele caça e traz para seus devotos tudo que há de bom nesse mundo: amor, prosperidade, saúde, felicidade e sonhos realizados. Ele nos protege dos bandidos e seres malignos que nem podemos ver, ele nos sustém alimentados e abrigados, mas acima de tudo, ele é o grande mestre que ensina a como ser correto, justo, e a como sempre progredir, no objetivo do refinamento pessoal e da melhoria do ser. Por isso ele é o grande mestre e senhor de todo o povo da terra.

Odé má tá! Eepá Oni Àráàyiè!

(Caçador, não atire em mim! Salve o Senhor da Humanidade!)

 

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26169359_967821513365044_5833293999519233525_nMirimom Arcalimon. Me defino como um bruxo que busca a experimentação de uma bruxaria africanizada e afrocentrada, baseada principalmente no culto dos Òrísá, da religião Yorubá e Loa, do Vodu, e o estudo das culturas e dos espíritos da África subsaariana. Autor da coluna Concha de Igbin.

 

 

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