Espiritualidades Africanas

Chama-se de religiões africanas e afrodiaspóricas, as práticas espirituais advindas da África e outras práticas surgidas à partir dessas, na América, durante a época da escravidão transatlântica. São religiões pagãs e politeístas (em sua grande maioria), no entanto tendo particularidades históricas, sociais e psicológicas. Além disso, a maior parte delas abarca práticas de xamanismo, bruxaria, e influenciaram muito nas religiões e práticas religiosas do ocidente, tanto indireta, quanto indiretamente.

Assim como em qualquer religião pagã histórica existe um divino primordial intangível, que os humanos não podem acessar, mas que pode ser acessado pelos demais deuses, que tem comando sobre a natureza perceptível (ou mesmo imperceptível, como Sòppònnán, o deus da varíola, que nossos ancestrais só podiam perceber mesmo quando era tarde demais), e que intercedem por nós diante desse divino primordial.

Especialmente na diáspora, isso levou as pessoas a, erroneamente, entenderem nossa fé como monoteísta, o que é ignorante. Acontece que na África ainda existe, preservado e intacto, o antigo pensamento teísta pagão, que é obviamente diferente do teísmo abraâmico. Caos, Ymir e Ometeotl são deuses intangíveis e princípios criadores dos próprios deuses. Os deuses gregos, nórdicos e astecas não deixam de ser deuses por causa disso.

Mas além disso, e o que eu acho mais bonito nas expressões de fé dos ancestrais, é a importância dada aos antepassados, grupo do qual quase sempre as divindades fazem parte. Existe, no entanto a diferenciação do que é um ancestral familiar/clânico, o que é um ancestral heroico, que pode até mesmo tornar-se um deus, e um deus que também é ancestral, por ter vindo e se manifestado entre nós, deixando depois um elo sagrado, quase sempre marcado no lugar onde essa divindade se despiu da vida na terra.

A veneração de espíritos animais é comum, visto que eles encarnam deuses, ancestrais e representação dos elementos. A serpente é um dos mais comuns em todo o continente, indo de Kemet ao Daxome, quase sempre ligada ao ar, ao entre mundos e aos próprios antepassados. Além disso, também costumam ser vistos como importantes outros grandes animais carnívoros, como o leopardo, a hiena, o leão e o abutre.

O culto das árvores é outro culto essencialmente comum. Elas estão ligadas, também, aos antepassados, e à floresta, onde vivem os animais, as folhas, o rio, e todas as outras coisas sagradas. Elas também conectam o céu e o profundo da terra com o lugar onde vivemos. Dessas árvores, as mais largamente consideradas sagradas, especialmente na África Ocidental e Central, mas também em partes da África Oriental, são o Baobá, a teca africana (Iroko, Oji, Loko, entre outros nomes), a palma e o ébano.

Quase sempre também, com raras exceções, as religiões nativas são praticadas em ou possuem dentro de si sociedades secretas iniciáticas. Essas sociedades possuem caráter tribal, no sentindo de serem extremamente etnocentradas (mesmo as que iniciam estrangeiros), e focadas em seus segredos como forma de manter sua tribo, e por isso tem esse caráter secreto: assim evitam que seus inimigos ganhem poder através do acesso a seus segredos.

Outro ponto importantíssimo é o culto à cabeça. Não o culto ao guardião da cabeça (pai/mãe) somente, mas o culto à consciência em si. Afinal, se você descende de um deus, naturalmente sua consciência é um deus também. Esse deus deve ser cultuado antes de todos, pois só com a permissão dele outros deuses e ancestrais podem te ajudar.

Na diáspora, certos elementos se alteraram, outros se perderam. O deus primordial, se tornou o único, para que os demais deuses se equiparassem a santos católicos. Em alguns locais, como no próprio Brasil, o culto aos quase mortos sumiu, ou sumiu quase completamente, e muitos sacerdotes afro-diaspóricos falam mal desse culto, ao mesmo passo que ainda o celebram sincreticamente.

Inclusive, qualquer relevância dada a coisas como a devoção das almas, dia de finados, Anima Sola, entre outras devoções católicas do gênero, se deve diretamente às religiões afro-diaspóricas, que caíram no gosto do catolicismo popular, especialmente pela prática de magia, e a igreja respondeu abrindo espaço para esses cultos, por sua popularidade em certos lugares, crendo assim estar cristianizando os pagãos, quando na verdade só estavam criando outro terreno mais estável para as devoções a nossos antepassados.

Na diáspora o caráter secreto acabou adquirindo também a função de preservar a religião, mais do que proteger à tribo. Na África, muita coisa que é considerada segredo aqui não o é lá, mas porque aqui foi necessário preservar a dignidade cultural das nossas fés, em um meio onde elas eram perseguidas e onde os rituais podiam ser mal compreendidos, alvos de dessacralização e zombaria. No entanto, as limitações da diáspora mataram parte da nossa herança: a maior parte dos elementos xamânicos se perdeu, bem como a memória da herança divina consanguínea.

Com a perda de espaço necessário para tal, rituais de orientação xamânica se perderam, já que dependiam do uso de certos elementos que eram difíceis de serem obtidos ou usados discretamente na condição de escravidão (como certos enteógenos e máscaras rituais). Com a mistura de escravos de diferentes nações, e com muitas famílias sendo separadas, ficou complicado traçar a descendência divina de alguém pela consanguinidade. Marcas e escarnificações tribais ou de iniciação também ficaram menos comuns na diáspora, pela proibição das religiões de matriz africana. Marcas que antes orgulhosamente eram ostentadas no rosto, passaram a ser discretamente colocadas nos braços, costas e peito, quando necessárias de fato.

Tanto na diáspora como na matriz (África), existe comumente a prática de possessão ritualística. É interpretada de diferentes maneiras por diferentes segmentos, e feita de diferentes formas por diferentes segmentos, mas seu objetivo principal é permitir a comunicação direta entre adorador e adorado. A religiosidade afro, tanto matriz quanto diaspórica, tem uma grande tendência a manifestações visíveis de seus deuses e espíritos, eles aparecem diante dos devotos para falar com eles, seja através do corpo de alguém preparado para tal, ou por outros meios de manifestação, como materialização.

A materialização é especialmente comum no culto aos mortos clânicos/familiares. Geralmente estes ficam ancorados à pedras, tocos pesados,  bonecos, crânios de humanos ou símios e panelas. Não raro estes objetos sagrados movem-se sozinhos, ou movimentam coisas ao redor, para atrair a atenção dos cultistas ou mesmo para falar com estes. Os ossos dos mortos são muito importantes e, na matriz, não são sepultados longe da casa da família, na esperança que sigam zelando pelos seus vivos.

Outra característica predominante nas fés africanas e afrodiaspóricas é a crença na reencarnação familiar e na iluminação comunitária, ao invés da reencarnação karmica e iluminação individual, que espalhou-se pelo ocidente. Toda pessoa ligada à comunidade, seja somente por sangue, seja somente por introdução na comunidade religiosa local, ou ambos(na matriz o terceiro caso é mais comum) está intimamente ligada a todas as outras pessoas que também fazem parte do grupo/parentela, de forma a sempre retornar para este, e de forma a ser capaz de interferir na evolução mental, espiritual e material de todos através de suas atitudes entorno de suas responsabilidades dentro da comunidade em questão.

É interessante salientar que, apesar de serem sociologicamente tidas como religiões, os próprios praticantes destas fés nem sempre as consideram como tal. No Brasil isso soa estranho, candomblecistas, umbandistas e outros afrorreligiosos usam do termo “religião”, para impor respeito a sua fé nessa nossa sociedade racista. Mas o fato é que na África, e em países de grande população e herança cultural africana, como Haiti e Jamaica, “religião” é aplicado exclusivamente às religiões baseadas na fé, como as religiões abraamicas, onde o deus é transcendente e não se manifesta por meios da natureza ao nosso redor, onde todo o contato com o divino se sustenta na fé e na confiança de que o deus esteja onde é esperado que esteja.

Ora pois, eu não preciso de fé para crer em Șàngó, por exemplo. Eu o vejo quando acendo o fogo e quando o raio cai do céu. Não é uma crença em algo invisível, é verdade, está ali, fora o fato de Șàngó, tal qual diversos outros deuses africanos, ser de fato um personagem histórico. Logo, não é preciso ter fé em Șàngó, porque ele está ali, ele pode ser visto, podemos falar sobre como ele era e o que fazia enquanto estava na terra. Logo, cultuá-lo envolve mais uma questão de conhece-lo. Exatamente por isso, devotos dessas religiões frequentemente tem mais de uma religião: a tradição, que é mais vista como um bom costume do que uma religião em si, e uma religião “de fé”, geralmente cristã ou islâmica, mas não somente.

Outro ponto, segundo essa visão, é que “religião” é obrigatoriamente impositiva e proselitista. Pretende trazer a verdade absoluta e inquestionável sobre o divino, coisa que as tradições da matriz e da diáspora não se interessam em fazer. Sacerdotes diferentes, de uma mesma divindade, podem ter cultos distintos, ou sacerdotes de divindades distintas podem ter cultos muito similares, e eles geralmente mais conversam entre si, trocam informação e transformam a devoção própria e alheia com novas informações e ideias do que brigam entre si.

(Texto escrito por Mirimon Arcalimon)

 

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A Concha de Igbin (por Mirimon Arcalimon)

 

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